segunda-feira, 30 de abril de 2012

Usina de incineração de lixo: vilão ou mocinho?


Qual a melhor saída para o lixo que nós produzimos diariamente? No Brasil, são produzidas 150 mil toneladas de lixo urbano todos os dias. Como uma alternativa para resolver esse problema, o prefeito de Maringá (interior do Paraná), Sílvio Barros (PP) pretende implementar uma usina de incineração de lixo, algo pouco comum no Brasil. A cidade paranaense, que produz cerca de 300 toneladas por dia, teria como meta para a usina a queima de 500 toneladas diárias de lixo. Porém, tal alternativa tem sido alvo de protesto por parte de moradores, assim como tem recebido críticas de estudiosos de áreas diversas.

As críticas negativas da usina de incineração de lixo se devem tanto ao alto custo da obra e da manutenção da usina – a obra está avaliada entre R$ 180 milhões e R$ 200 milhões – como da contaminação e da emissão de gases. “Não é uma solução, o custo é muito alto, há contaminação e emissão de gases. É uma forma de arrancar dinheiro do contribuinte”, disse Sabetai Calderoni, presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável e especialista em lixo. Para Calderoni, existem outras soluções mais viáveis que se adéquam melhor à realidade brasileira, como a reciclagem e a compostagem.

Além disso, há quem critique que a incineração vai de encontro à lógica de redução da produção de lixo e do aumento da reciclagem, recomendadas pela Lei Nacional de Resíduos Sólidos. Para Gina Rizpah Besen, mestre pela Faculdade de Saúde Pública da USP, o projeto da usina é muito mais caro do que campanhas educacionais para a redução e reciclagem de lixo. “Ela não é adequada do ponto de vista ambiental, porque para funcionar precisa de plástico e põe em risco os catadores de lixo e emite mais que um aterro sanitário comum”, disse. As usinas de incineração necessitam de material reciclável por ele ser mais comburente. “É necessário o uso de materiais de queima mais fácil. Manter uma usina queimando apenas lixo orgânico é muito caro”, disse Luciano Bastos, do Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais da Coppe/ UFRJ.

Porém, de acordo com dados da Agência de Proteção ao Meio Ambiente da Grã-Bretanha, a reciclagem e a compostagem aumentaram até 19% entre 2003 e 2004, quando as usinas britânicas começaram a funcionar. Um dado importante, mas que não indica que a usina causou diretamente a conscientização das pessoas. Além disso, há a possível influência do governo para a conscientização do povo através de campanhas educacionais, algo que deveria ser feito no Brasil, onde, em média, 60% do lixo é orgânico (o chamado lixo úmido) e o restante é material que pode ser reciclado, como vidro e papel.

O grande trunfo da incineração, no entanto, está em gerar energia a partir do lixo. Aterros sanitários também podem gerar energia a partir da captação de gases emitidos pela decomposição do lixo, mas de acordo com estudo da Agência Americana de Proteção Ambiental (EPA), a incineração é capaz de produzir cerca de 10 vezes mais energias que os aterros. “Nem sempre se consegue captar energia dos aterros, e paga-se muito caro para fazer sua distribuição”, concorda Calderoni.

Um projeto experimental de usina de incineração foi instalado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desde 2004, a Usina Verde recebe diariamente 30 toneladas de resíduos sólidos, pré-tratados, provenientes do aterro sanitário no Caju. Após passar pela triagem, o lixo é levado para um forno fechado na Usina Verde que realiza a queima em temperaturas altíssimas de 950º C. Os gases resultantes desta queima são levados até uma caldeira e o vapor gira a turbina que gera a energia.

De acordo com o professor Luciano Bastos, que coordenou o projeto da Usina Verde, o processo de incineração é monitorado o tempo inteiro para que não ocorra escape de gases para a atmosfera. Sobre a crítica de que a incineração gera moléculas cancerígenas que afetariam a saúde dos catadores, o pesquisador defende que os níveis gerados são os mesmos produzidos por veículos movidos a diesel. Porém, a melhor alternativa para Bastos seria associar a reciclagem ao uso de tecnologias, como o uso de biodigestores, em que o lixo é confinado em ambiente sem oxigênio e digerido por bactérias, gerando como produtos o adubo a partir do lixo orgânico e os gases que podem ser aproveitados em veículos.

“A incineração é uma alternativa, mas não é a única. Se houvesse coleta seletiva plena, não caberia ter incineração”, disse Bastos. Ele afirma que o ideal é reciclar “tudo o que for possível e depois aplicar as tecnologias”. Para ele apenas o material rejeitado pelos catadores pode ser aplicado para a incineração, tanto por motivos ambientais quanto econômicos. “A reciclagem é a melhor rota energética do lixo, pois com ela a indústria economiza energia”, disse. De acordo com o pesquisador, cada tonelada de material reciclado gera 3 megawatts/hora de energia economizada, enquanto a melhor tecnologia de incineração gera a partir do lixo 1 megawatt/hora de energia.

Vitória Moro Bombassaro (11/04/2012)

Fonte: Queimar lixo não é a melhor solução, afirmam especialistas. Por Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo 11/04/2012 08h00min. <http://ultimosegundo.ig.com.br/ciencia/meioambiente/queimar-lixo-nao-e-a-melhor-solucao-afirmam-especialistas/n1597737615770.html> Acesso em 11/04/2012 às 22h17min.

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