sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Café com a Matilda

Quando alguém fala no nome Matilda, certamente remeterá este nome ao famoso filme “Matilda”  um clássico da sessão da tarde. O filme de 1996 com direção de Danny deVito conta a história de uma menina dotada de extrema inteligência que vivia sob os cuidados de seus pais que eram fascinados por televisão. Bom, a história do filme é muito bonita, mas eu não vou comentar nada além disso sobre ele. A Matilda que hoje falo tem uma história triste cercada de opressão de gênero que dura até hoje.

O efeito Matilda foi descrito pela pesquisadora em história da ciência Margaret W. Rossiter em 1993. A historiadora atribui esse efeito a todas as descobertas feitas por mulheres que foram negadas a elas e atribuídas a  pesquisadores homens. Isso pode parecer um tanto absurdo, mas não tanto se olharmos para a histórias das mulheres e ver que não só nos meios científicos, mas como na sociedade em geral nós mulheres sempre fomos oprimidas, violentadas, negadas e julgadas simplesmente por sermos mulheres, ou o chamado “sexo frágil”.
Arquivo pessoal / Resgate


Na química, temos um grande referencial feminino: Marie Curie. Eu, particularmente prefiro chamá-la de Marie Skłodowska (nome de solteira de Marie). Esta mulher que foi a única cientista a receber dois prêmios nobel na área de ciências exatas é um referencial quando se fala em radioatividade pelas suas descobertas dos elementos Radio e Polônio. O que muita gente não sabe sobre Marie é que ela foi impedida de dar continuidade aos seus estudos no nível superior por ser mulher (obteve os ensinamentos básicos com seu pai). Sendo proibida, deu continuidade aos seus estudos na clandestinidade. Mesmo com todas estas adversidades ela é um ícone da ciência Química e Física.

Não só Marie tiveram seus direitos, vontades  e descobertas negados pelo fato de ser mulher. Talvez o primeiro caso interessante de citar é a da Doutora Trotula de Salermo que viveu entre os séculos XI e XII. Ela escreveu livros sobre saúde feminina, ginecologia, controle de natalidade, menopausa e muitos outros assuntos. Porém, estas descobertas foram atribuídas a homens e seu nome praticamente esquecido. Nettie Stevens, norte americana  descobriu que os cromossomos determinavam o sexo do individuo. Foi ela que relatou os pares XY e XX para ambos os sexos. Novamente, suas descobertas também foram dadas a pesquisadores homens.

Apesar disso tudo, recentemente a Iraniana Maryam Mirzakhani foi a primeira mulher a conquistar a medalha fields na área de matemática, coloca ainda que: 
“"O desequilíbrio de gêneros é uma questão antiga e muito difundida na matemática e a Fields Medal, particularmente, não é compatível com a trajetória profissional de muitas mulheres que atuam no campo.” 
Ainda na área de ciências exatas, uma pesquisadora brasileira, negra Marcelle Soares-Santos recebeu o Prêmio Alvin Tollestrup 2014, concedido pela Associação de Universidades de Pesquisa dos Estados Unidos pelas suas contribuições com ao estudo da matéria escura. Além de enfrentar todas opressões de gênero, Marcelle ainda convive com o racismo.
O tempo de duração deste texto deve ter sido suficiente para que o café que você tomava enquanto lia não esfriasse. Porém, a opressão do sexo masculino sobre o sexo feminino dura muito mais tempo do que um simples café. A ideia de que a mulher é um ser humano, que tem direitos e vontades parece uma ideia tola para nossa sociedade patriarcal. O machismo gera grandes desestímulos as mulheres que querem fazer graduação, principalmente na área das exatas. Quantas vezes você já ouviu: Mulheres não são boas com contas! 
Nós mulheres lutamos diariamente contra todos os tipos de violência geradas pelo machismo, mas não podemos, em nenhum momento deixar de cursar algo que gostamos por sermos mulheres. Levanta-te aluna! Se teu desejo é fazer um curso de exatas, faça! Lute pelos seus direitos também.

Ketlin Correa Garcia - Professora de química

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