terça-feira, 12 de agosto de 2014

Temos tanto para ensinar! Não temos tempo para piadas racistas, machistas e homofóbicas

Arquivo pessoal/Resgate
Depois de ler a matéria veiculada pela Folha de São Paulo, muitas coisas vieram à minha cabeça e, é claro, nossa atuação como grupo de professores e professoras do Resgate. Essas questões tem a ver com três perguntas (que todx professor(a) deveria se fazer, sobretudo de cursinhos populares): para que(m) serve um cursinho, para que(m) serve a educação popular e para que(m) serve a linguagem opressora.

No discurso dos professores entrevistados dos cursinhos mencionados na matéria (que coisa, não? todos homens...), fica nítido que o objetivo dos cursos pré-vestibulares onde trabalham, antes de intentar educar, é fazer decorar e, acima de tudo, entreter. De professorxs formadxs para desenvolver com xs alunxs as descobertas que fizeram durante seus cursos de licenciaturas, essxs profissionais passam a show-man e show-woman: precisam fazer rir, divertir, distrair. É como se fosse uma nova televisão. Mas será que xs vestibulandxs precisam pagar caro para ouvir diariamente um Domingão do Faustão? Nós do Resgate acreditamos que não – que o tempo de cada alunx é precioso e que, se vamos deixar de falar de algum ponto do “conteúdo” do vestibular, que seja para formar cidadãos e cidadãs conscientes do papel que têm, como estudantes e futurxs acadêmicxs, e não telespectadores que se contentam com piadas de mau gosto.

E isso tem relação não só com a nossa concepção de educação, mas muito mais profundamente com a  nossa concepção de educação popular. Nós temos um projeto bem nítido: queremos uma universidade mais popular. Como licenciandxs e professorxs, lutamos pela democratização do acesso ao ensino de qualidade, dentro e fora da universidade - e, é claro, pelo fim do vestibular. No entanto, enquanto ele existir, estaremos oferecendo horas dos nossos dias àqueles que têm o sonho de entrar na Universidade pública.  E, se formos deixar, por alguns minutos, de falar de estequiometria, vai ser para comentar sobre cientistas negras reconhecidas mundialmente; se formos parar de falar sobre projeção cartográfica, vai ser para falar do eurocentrismo e das possibilidades além dele; se for para parar de falar sobre argumentação na redação, vai ser sobre não utilizar termos como “judiar” e “denegrir” ao defender um ponto; se for para parar de falar sobre fonética, vai ser para falar sobre a inexistência de diferença linguística entre “adevogado” e “adivogado” e da existência de um padrão intensamente estabelecido por um critério de classe; e, se sobrar tempo, vamos rir de nós mesmos reaprendendo a ensinar a cada aula e tentando criar maneiras de fazer algumas matérias, que aparentemente não têm sentido nenhum, ficarem até janeiro retidas em algum lugar da cabeça ou do coração. Enfim... Temos tanto para ensinar! Não temos tempo para piadas racistas, machistas e homofóbicas.

É lógico que essa questão não diz apenas respeito a tempo e prioridades. Se lutamos diariamente para que aqueles historicamente oprimidos estejam à frente de seus destinos e armados de conhecimento útil para a vida (e também para o vestibular...) e para que entrem na Universidade como sujeitos críticos à própria realidade que enfrentam e enfrentarão dentro dela, como poderíamos fechar os olhos para a opressão pela linguagem? É lógico que uma piada não é “só uma piada”, como os professores da matéria da Folha deixam explícito. Cada palavra que falamos tem o poder de criar um mundo novo. Se queremos uma nova universidade, uma nova educação, por que vamos reproduzir um mundo velho, preconceituoso, que faz sofrer aqueles que historicamente têm sofrido, sob a desculpa de fazer rir com machismo, racismo e homofobia? Por que vamos gastar o nosso tempo e dos nossos alunos sendo mini-Faustões, insultando mulheres pela “incapacidade intelectual”, trazendo para a aula diferentes identidades sexuais e de gênero no intuito de “imitar seus trejeitos”(!!!), por que vamos reproduzir estereótipos de identidades negras? Isso  nossxs alunxs já conhecem, porque sofrem na pele a consequência da reprodução disso diariamente, conscientes ou não.

Se os cursinhos privados aceitam a sina de serem (caros) programas de auditório, nós não temos tempo para isso: temos um mundo novo de educação popular e de qualidade para construir.

Ps.: Queridxs alunxs, para ajudar nesse debate, coloco de novo aqui os textos de que já falamos em aula. Ah! Notaram os diversos “x” no meio das palavras? Em breve falaremos disso, quando falarmos de concordância nominal tradicional e novos jeitos de concordar surgidos na Internet. Aqui s links:

Documentário “O Riso dos Outros”

Livro “A linguagem escravizada”

Propaganda: “Like a girl”

Nathália Gasparini, coordenadora do núcleo de Português

Nenhum comentário:

Postar um comentário