terça-feira, 23 de setembro de 2014

Alguma coisa sobre Pablo Neruda e sua poesia

Daniel Marcilio, autor


O Chile é uma costa estreita, rodeada por altas cordilheiras e cercada pelas águas do Oceano Pacífico. Porém,  apesar do nome, não foram raras as vezes em que o mar despejou sua cólera sob os chilenos, arrastando casas praia a dentro. Quando, em 1968, uma violenta ressaca atingiu uma parte do país, a região de Valparaíso, correram notícias de que o Pacífico teria levado a vida de um dos maiores escritores do Chile. Passadas duas semanas, a resposta para tais boatos surgiu na forma de versos:




En la Punta del Trueno anduve
recogiendo sal en el rostro
y del océano, en la boca,
el corazón huracanado:
lo vi estallar hacia el cenit,
morder el cielo y escupirlo



O autor do poema: Neftali Ricardo Reyes, mais conhecido como Pablo Neruda.  Nascido em 1904, na pequena cidade de Parral, no Sul do Chile, ele é, sem dúvida, um dos grandes poetas do século XX. Essa relação com o oceano, aliás, é uma constante na obra de Neruda, que costumava recorrer a imagens marinhas para compor frases de belo lirismo. Na poesia da adolescência, mar aparecia como um elemento maternal, que a tudo envolvia. Depois, nos anos de mais militância política, torna-se uma força hostil na poesia de Neruda, como uma maré que arrebata  a vida de humildes pescadores. A transição entre as duas fases demonstra bem os diferentes momentos da trajetória humana e poética de Neruda. No livro 20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, escrito em 1924, o tom é melancólico, cantando a perda da mulher amada. Em 1950,contudo, a temática era outra – o poeta engajou-se na luta em defesa da América Latina.

Neruda, que trabalhou como diplomata, testemunhou o período entre guerras na Europa e os horrores da Guerra Civil Espanhola. O conflito influenciou sua poética, e ele se engajou cada vez mais nas causas sociais. Ao abandonar a carreira diplomática, decidiu se candidatar ao Senado pelo Partido Comunista – foi eleito em 1945, mesmo ano em que conheceu Salvador Allende. No ano seguinte, no entanto, faleceu Ríos Morales, presidente  do Chile, e o substituto  Gabriel González Videla instaurou um regime repressivo no país, com censura à imprensa e perseguição aos sindicatos. Neruda começou a se manifestar contra Videla, publicando artigos em jornais, e transformou-se, por isso, em um clandestino em sua própria terra. Teve o mandato cassado e foi perseguido, mas não parou de denunciar a injustiça e a desigualdade por meio da poesia. Nessa época, na década de 1950, lançou Canto Geral, uma coletânea de textos em que expressa toda a vitalidade da América Latina que, contudo, é assolada por inúmeros males.

O retorno ao Chile só foi possível em 1970, quando Neruda chegou inclusive a ser indicado à presidência pelos comunistas, mas desistiu em favor do seu amigo Salvador Allende. Neruda foi defensor do governo socialista e um ferrenho opositor de qualquer tentativa de golpe. O reconhecimento por sua vasta obra veio ainda em vida, em1971, com o Prêmio Nobel de Literatura, a maior honraria que um escritor pode receber.  Os chilenos, que temeram que o mar pudesse ter levado o poeta na ressaca de 1968, não poderiam adivinhar que Neruda faleceria em  23 de setembro de 1973, poucos dias após o golpe militar que derrubou o governo Allende. Morreu vítima de um câncer. Seus versos, porém, sobreviveram,  continuam eternos como o oceano. A poesia de Neruda entusiasma a todos que guardam a esperança de um novo mundo. 

Daniel Marcilio, jornalista do Resgate

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