sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Quando a educação popular nos acontece

“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.” 

Essa fala do professor Jorge Larrosa é ou não é um retrato do tempo em que vivemos? Na TV, o telejornalismo pratica a arte de transpor para uma quadro de mentira e  indiferença aquilo que, de fato, poderia estar nos acontecendo – e muitas vezes está, mas o próprio jornalismo faz a tarefa de nos esconder. No Facebook, tudo acontece enquanto baixamos a barra de rolagem: os links, as fotos, as piadas correm como manchetes, assim como os acontecimentos da vida das pessoas, e ficamos a par de muito, muito do que acontece, mas, de fato, nada daquilo nos acontece. Quando sentimos uma centelha de algo que nos toca, liberamos esse sentimento em forma de “compartilhamento”, e, minutos, horas ou dias depois percebemos que nada daquilo nos passou, porque muito pouco do compartilhado, de fato, nos fica. Na escola, séculos de desenvolvimento de conhecimento humano desfilam na frente de nossos olhos: um mundo infinito de descobertas e experiências humanas transformadas numa linha do tempo, numa fórmula, numa lista de regências, num mapa de um mundo que – diz a professora – muito significa mas – sentimos nós -  muito pouco diz de fato sobre o nosso mundo. 

E no cursinho, como as coisas não nos acontecem?

As coisas não nos acontecem quando a gente entra na sala de aula, como alunx, senta a bunda na cadeira e espera, mais uma vez, que o mundo desfile a nossa frente sem nos tocar. São datas, nomes, países, fórmulas, moléculas, cálculos, listas, opções, números, estruturas: o mundo didaticamente transposto para nos dizer absolutamente nada. Para nos passar absolutamente nada. Para nos acontecer absolutamente nada.

Mas como a vida real dificilmente é feita de nadas para aqueles que sonham, muito fora da aula nos passa: nos acontecem as famílias, os avós, os pais, os amigos, as amigas, os filhos e as filhas; nos acontecem muito nos trabalhos, nos empregos, nos desempregos; nos acontece muito na rua, em casa, na casa do companheiro, da companheira, na festa de família, no baile, no bar; nos faltam tempo, dinheiro, espaço, trabalho, amor, carinho, compreensão, escuta, passagem, comida, saúde, médico; nos sobram dívidas, trabalho, amor, carinho, compreensão, escuta, família, perseverança, sonhos. Tanto nos passa....!

Parece que sim, na verdade, muito nos toca, ainda que muito seja organizado para o oposto. Assim como na escola, parece que no currículo do cursinho tudo está organizado para que nada nos aconteça, apenas o desfile do que não é nosso. E o que não é nosso, ou nos foi historicamente negado, é justamente o que precisamos tomar de assalto; é o conhecimento (ou a informação?) que precisamos para passar no vestibular que nos faz suportar anos de estudo para superar a tal prova que tem o único objetivo de manter tudo como está: porque, em princípio, a universidade não foi feita para a classe trabalhadora; tampouco o vestibular, que coloca os muros dela lá em cima. O que podemos fazer, como curso popular, para que isso aconteça? 

Não podemos fugir do fato de que, como professores e professoras de cursinho, temos que focar nesse tal desfile escolar de (des)acontecimentos. Mas, como cursinho popular, temos que reconhecer: precisamos organizar coisas para que elas aconteçam pra nós, como professorxs, para nós, como aluno
xs. O Resgate se propõe a fazer acontecer, dentro e fora da sala de aula. Diariamente, é preciso relacionar fatos, perguntar, avaliar a prática, pensar em estratégias, mostrar a implicação prática de certas informações na vida para que pelo menos um pouco aconteça a cada noite que nos dedicam a atenção. Todos os (des)acontecimentos têm algum sentido para a experiência humana, sabemos, e buscar esse sentido é a nossa eterna jornada como educadorxs. E, quando desanimados, nos agarramos no nosso sonho que é individual mas também coletivo: o que queremos que, de fato, (nos) aconteça, é a universidade popular. 

Além de tudo isso, enxergamos que é preciso levar a sala de aula pra rua e transformar a rua em sala de aula! Nesse e nos outros anos de Resgate, não foram poucos momentos em que fizemos de tudo para que as coisas nos tocassem; nesse ano, nos aconteceu a belíssima sessão de audição comentada da banda Apanhador Só no Núcleo da Canção da UFRGS; nos aconteceu a saída de campo do Projeto Territórios Negros de Porto Alegre; nos aconteceram manifestações contra o aumento da passagem e a assembleia popular na ocupação na frente da Prefeitura por um transporte público e gratuito; nos aconteceram aulas de física, química, português, biologia, matemática juntas ao mesmo tempo procurando entender os mesmos problemas do mundo; nos aconteceram experimentos e uma emocionante criação, montagem e apresentação de Teatro do Oprimido; nos aconteceu uma belíssima aula de cidadania com o debate de candidatos para o Senado; nos aconteceu a assembleia de organização do seminário de cursinhos populares de Porto Alegre; nos aconteceram múltiplos encontros, conversas, cervejas, abraços, momentos de escuta e de ajuda; e muito ainda nos acontecerá. Não só no momento da aprovação no vestibular, organizar propostas pedagógicas que propiciem momentos que nos toquem de verdade significa reconhecer e fazer de tudo para que a educação popular nos aconteça.


Que os cursinhos populares sejam o lugar onde acontece a conquista da universidade pelo povo trabalhador, e que a nós, como professorxs e como alunxs, sempre muito nos aconteça, nos passe e nos toque. 




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