segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A apreensão das urnas

Assim que as urnas fecham e a votação começa a ser apurada, cria-se um clima de apreensão. De repente, aquelas pesquisas eleitorais, divulgadas semana após semana pela mídia, perdem qualquer importância; não importam mais as intenções de voto, mas os números reais. Aliás, a cada quatro anos, a tensão é ainda maior- é o momento em que são decididas as eleições presidenciais, definindo quem governará o país pelos próximos quatro anos. Ontem, domingo de votação, milhões de brasileiros escolheram seus representantes, e os resultados vieram com extrema rapidez - porém, se a expectativa gerada pelas apurações já era grande, os nomes escolhidos superaram várias previsões, revelando o perfil da maioria do eleitorado.

Em geral, os eleitores, ao menos quanto aos cargos do executivo, demonstraram um posicionamento conservador: não arriscam votar em propostas mais radicais, seja à esquerda, seja à direita; preferem a suposta conciliação do centro e, por isso, passam por cima de ideologias partidárias. Assim como os políticos saltam de um partido para o outro ou fazem alianças esdrúxulas, as pessoas também não se sentem constrangidas, ou melhor, não veem problemas em votar, na mesma eleição, em diferentes candidatos dos mais diversos partidos. Contudo, desta vez, uma representação política ainda mais reacionária se concretizou, com a eleição expressiva de candidatos como Bolsonaro, Heinze e Marcos Feliciano - todos estes ocuparam vagas no Legislativo,ou seja, representarão o povo no Congresso e, no entanto, são radicalmente contra os direitos das minorias.

Mesmo depois das manifestações de 2013, que, apesar de suas contradições, proclamavam a esperança de uma nova política, percebe-se que o cenário atual impulsiona a exacerbação do posicionamento retrógrada. Quando o candidato mais votado do estado é alguém que disse publicamente "quilombolas, indígenas e homossexuais são tudo que não presta (sic)", há um problema gravíssimo, pois essa fala está longe de ser uma opinião, mas é uma declaração explícita de ódio, beirando o fascismo. Para piorar, e é importante ter isso em mente, não existe uma linha demarcatória e intransponível entre os políticos e a sociedade civil, como se um não tivesse relação com o outro, ou melhor, a legitimidade de um candidato se constrói pela força que o discurso dele encontra entre a população. Então, o pensamento autoritário e preconceituoso ressoa na opinião pública de uma forma implícita. Além disso, as razões do voto são bastante complexas e, muitas vezes, sequer dependem da moralidade – uma pessoa pode votar em um político claramente corrupto ou retrógrado, desde que este defenda no parlamento medidas e políticas que aquele eleitor julgue como merecedoras. A questão é que certas causas, como os direitos humanos, são infelizmente vistas como irrelevantes por esse senso comum, abrindo margem para a candidatura de políticos repressores. Se a tendência continuar, daqui a quatro anos irá se repetir a mesma aflição – a espera do resultado eleitoral marcada pelo temor de que os eleitos possam reforçar o retrocesso na representação política. 

Daniel Marcilio - Núcleo de Comunicação

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