segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A solidão coletiva das grandes cidades

Não sei definir se a individualização do indivíduo e a perda da sensibilidade coletiva e suas implicações são “evidentes”, como quase disse para começar este texto. Seja como for, sendo a modernidade uma “experiência vital” que se faz presente desde o século XVI, deveríamos, enquanto sociedade, nos questionar mais sobre algumas de nossas noções, como as de autonomia, liberdade, felicidade e tempo. Um dos grandes males que essa “experiência” gerou é a crença ingênua de que entre duas coisas diferentes tem de haver, necessariamente, uma melhor que a outra, quando justamente a soma das diferenças forma a indestrutível, imprescindível e eterna diversidade. A lógica do pensamento comum, entretanto, é destrutiva, não construtiva. Assim, se ensinam determinados modelos predefinidos de cidadão, ou de vida: se sempre existir um melhor, é esse que deverá ser reproduzido e, automaticamente, o outro não tem valor.

Se perpetua isso – nas escolas, em casa, nos meios de comunicação – ao invés de se relacionar de maneira crítica e coerente o presente com o passado. A meritocracia faz esquecer das origens e é o ingrediente básico para a receita de hipocrisia e a intolerância, cada vez mais comuns e flagrantes no que se chama de sociedade. As pessoas têm, cada vez tem menos, humildade e autocrítica; se tornam mais cruéis. Faltam reflexões e sobram perguntas, mas poucos têm tempo para saber isso devido a extenuantes rotinas de trabalho associadas à falta de estrutura educacional. A modernidade trouxe vícios comportamentais, repetição, tédio e desvalorização de virtudes pessoais em prol desses modelos ideais, absolutos, que variam de tempos em tempos, e o indivíduo se apequena. Sente-se uma solidão coletiva nas grandes cidades, mas sente mais quem compra essa ideia.

Leonardo Porzio - Professor de redação


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