sábado, 18 de outubro de 2014

Eu sou mulher: Um breve relato sobre a história de luta das mulheres

Eu sou uma mulher que vive em uma sociedade diferente, a qual se baseia em coleta e caça. Meu papel nessa sociedade era central, um ser sagrado. Eu posso gerar a vida e ajudar com a fertilização da terra. No meu mundo, masculino e feminino andam juntos, onde não há binário de gênero.  Os homens se sentem um tanto marginalizados pois eles não tem um útero, não podem gerar vida e isso para meus deuses é um privilégio. Eu fui a primeira a descobrir os ciclos da natureza fazendo uma simples comparação com meu próprio corpo. Fui a primeira plantadora e a primeira ceramista. Eis que os homens criam o arado.

Poder cuidar da terra torna minha sociedade sedentária. Começamos a montar aldeias, cidades, cidades-estado e  impérios. Nesse contexto deixo de ser o centro da minha sociedade, deixo de ser aquela deusa e os homens me veem como propriedade. Tenho que deixar meus pais ainda virgem para me casar e tornar-me propriedade de um homem, qualquer coisa fora disso pode me causar a morte. Quanto mais filhos eu puder ter, mais mão-de-obra eu gerarei para arar a terra, mais soldados para lutar em buscas de terrítório. Fico presa aos meus afazeres domésticos, a cuidar dos meus filhos e marido. Não sei o que é ter mais poder de voz na sociedade, em casa ou em qualquer lugar. 

Ao longo de vários anos eu tentei de várias formas evitar engravidar. Seja por falta de condições para alimentar todos os meus filhos ou até mesmo por não querer perpetuar a espécie de um homem do qual fui obrigada a casar. Alguns dos métodos utilizados por mim são simples. Algumas folhas de salsa e menta, ou folhas de salgueiro, hera e entre outros. Ovos de cobra ou aranha também são aconselhados. Existem alguns remédios vindos da China que são a base de mercúrio. Muitas mulheres afirmam ter evitado sua gravidez. Algumas delas infelizmente não sobreviveram pra contar. Vindos da Grécia, existiam os remédios que são a base de cobre.

Hoje, no século XX já existem antibióticos e antissépticos e eles conseguiram reduzir a taxa de mortalidade da população de uma forma impressionante, principalmente de mim e das outras mulheres e de nossos filhos. Hoje, na década de 60 há boatos de que um rémedio evita a gravidez de forma eficiente, um tal de “anticoncepcional”.

Estamos em 1931, os noticiários relatam que o primeiro hormônio foi isolado. Este hormônio é a androsterona, um tal hormônio masculino. Os pesquisadores extraíram 15 mg desse tal hormônio de 15 mil litros de policiais belgas. Em 1935 foi isolada a tal testosterona. Algumas pessoas dizem que utilizaram-se quatro toneladas de ovários de porca para extrair 12mg do estradiol, outro desses hormônios, só que dessa vez, um feminino. Problemas econômicos, de extração, os tais problemas químicos! Será tão dificil realmente fabricar um medicamento que evite gravidez? Que eu possa escolher se quero ter filhos ou não? Que eu finalmente tenha liberdade sobre meu corpo como eu bem entender?

Hoje, em 1960 é possível ver inúmeras mulheres lutando por igualdade. Por ter o direito de poder trabalhar, votar, ter direitos sobre seus próprios corpos. Estudiosos estão dizendo que estamos vivendo uma chamada “Revolução Sexual”.  Obter alguma informação hoje, sobre qualquer tipo de números relacionados a taxa de mortalidade materno-infantil é crime.

Graças a Russel Marker, foi possível enfim termos acesso a uma pílula anticoncepcional. É claro, ele entrou em um conflito incessante com a tradição de que a mulher não possui escolha. Fui pesquisar sobre Marker e seu trabalho e acabei por descobrir que ele formou-se, contra o gosto do seu pai, bacharel em química pela Universidade de Maryland em 1923. Após ter sua tese de doutorado pronta e já publicada na JACS (Journal of the American Chemical Society) Marker acabou por não obter o grau de doutor por não  cursar uma disciplina de físico-química como um requisito adicional. Passados três anos ingressou no corpo de pesquisadores do Rockefeller Institute em Manhanttan e obviamente ele era menosprezado por não ter o título de doutor. Nesse período no Rockfeller Institute que Marker iniciou seu estudos sobre esteróides e como produzí-los em quantidades grandes.

Marker sabia da presença de compostos semelhantes a esteróides em plantas em uma quantidade muito maior do que em animais. Mas obviamente, Marker se deparou com as autoridades tradicionais. O Rockefeller Institute alegava que este tipo de pesquisa se encaixava no Departamento Farmacologia e não no departamento de Marker. Logo, o então chefe da época proibiu Marker de trabalhar com esteroides de origem vegetal. Marker foi para Pennsylvania State College onde fez colaboração com a industria farmaceutica Parke-Davis. Logo, Marker conseguiu produzir quantidades significativas de esteroides a partir de raizes de trapadeira salsaparrilha (usada para aromatizar cerveja). Após alguns tratamentos químicos, Marker havia chegado na progesterona pura sintética, idêntica a da mulher. Mas Marker não parou, ele queria encontrar uma planta que contivesse uma maior quantidade de esteroides que poderíam ser obtidos com o tratamento que ele fizera. Sua busca o levou ao México, onde encontrou a espécie Dioscorea um inhame silvestre. 

Em plena segunda guerra mundial, quem consegue autorização para extração de qualquer coisa em outro país? Ninguém. Mas Marker viajou de ônibus e foi até os campos onde era possível coletar a planta que produziu ainda mais progesterona! Enfim teremos uma pílula anticoncepcional? Claro que não! Não na sociedade patriarcal na qual vivemos!  Marker não causou boa impressão com sua pesquisa nas indústrias farmacêuticas estado unidenses. Marker largou tudo e foi viver na cidade do méxico onde fundou o Syntex, a companhia farmacêutica lider mundial em produtos esteróides. Enfim, Marker brigou com seus sócios, fundou outra indústria química a Botanica-Mex que acabou sendo comprada por outras indústrias europeias e Marker, decepcionado destruiu todoas as suas anotações de laboratório.

A grande questão é que Marker introduziu uma opção para todas as mulheres uma opção, mas qual opção? Hoje, em 2014 sabemos o quanto os efeitos das pílulas anticoncepcionais são adversos. Taquicardia, nauseas, enchaquecas e outros muitos efeitos colaterais. Métodos anticoncepcionais para homens, com muito menos efeitos colaterais já são conhecidos. Porque nós mulheres temos que ainda sofrer todos esses efeitos colaterais? Porque somente nós temos que passar por isso? O quanto isso é uma libertação dos nossos corpos afinal? 


Ketlin Correia - Professora de Química

Referências

Penny Le Couteur e Jay Burreson, 1943. Os botões de Napoleão – As 17 moléculas que mudaram a história. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

Heinrich Kramer e James Sprenger. Introdução histórica, Rose Marie Muraro. O martelo das feiticeiras, 22ª ed. Rio Janeiro: Record:Rosa dos tempos, 2011.

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