sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Halloween ou Dia do Saci


Na noite dos horrores, em que os mortos saem de seus túmulos e tumbas para caminhar entre os vivos, países como EUA, Inglaterra, Canadá, Irlanda e Reino Unido, principalmente os de língua inglesa ou anglo-saxônicos, comemoram essa tradição que surgiu entre os antigos povos celtas. Marcadamente tradição atual americana, representada fortemente nos cinemas, o Halloween é uma data comemorativa que tem mais de 2500 anos. 
Elisa Deler | Professora de Espanhol
Surgiu entre o povo celta, que acreditava que, no último dia do verão (31 de outubro), os espíritos saíam dos cemitérios para tomar posse dos corpos dos vivos. Para assustar esses fantasmas, os celtas colocavam, nas casas, objetos assustadores como, por exemplo, caveiras, ossos decorados, abóboras enfeitadas entre outros. Por ser uma festa pagã, foi condenada na Europa durante a Idade Média, quando passou a ser chamada de Dia das Bruxas. Aqueles que comemoravam esta data eram perseguidos e condenados à fogueira pela Inquisição. Com o objetivo de diminuir as influências pagãs na Europa Medieval, a Igreja cristianizou a festa, criando o Dia de Finados (2 de novembro).
No Brasil, é comemorado o dia de todos os santos e de finados, 1° e 2 de novembro; no último, as pessoas prestam homenagem aos mortos levando flores aos túmulos. O Halloween, véspera do dia de todos os santos, chega ao Brasil, no entanto, com força reduzida, tendo expressão, principalmente, em escolas de ensino de língua inglesa e festas adolescentes, além de escolas, clubes, casas noturnas e shoppings de várias cidades. Não adquire, porém, força expressiva no Brasil. Aqui, poucas são as casas adornadas pelas bruxas, abóboras, pelas gárgulas e pelos morcegos “halloweenanos”. O dia das bruxas se infiltrou em nossas comemorações de forma tímida, pois o Brasil, país que geralmente celebra as coisas boas da vida, não se vê em meio à festividade aos mortos. Muitos nacionalistas criticam a influência do imperialismo cultural americano pela vinda do halloween. Dessa forma, alguns brasileiros, localizados em São Luiz do Paraitinga, cidade paulista, decretaram o dia 31 de outubro como o dia oficial do Saci Pererê em protesto à inclusão do Halloween, marcando o dia com uma representação significativa do folclore brasileiro. A maioria das manifestações critica a posição dos brasileiros em importar a cultura americana, já que o país tem grande diversidade folclórica que não é aproveitada e comemorada. No Rio de Janeiro, por exemplo, na data, são espalhados cartazes na cidade que visam a uma crítica contra a comemoração dessa data em prol de uma comemoração mais abrasileirada, que valorize nosso folclore e nossas tradições, deixando manifestar o patriotismo dentro de nossa cultura. 
Não adianta, é verdade, celebrar uma data que não represente nada para a nossa realidade. Contudo, se refletirmos cuidadosamente, se o Halloween “pertence” a alguém, é aos celtas, que o criaram. Mas, então, o Natal, tão celebrado internacionalmente, pertence a quem? Nesta mesma época do ano, fins de dezembro, várias eram as comemorações existentes pelo mundo em celebrações natalinas. Os mesopotâmicos, por exemplo, celebravam nessa mesma época o Zagmuk. Nas civilizações nórdicas, o Yule – marcado para o dia 21 de dezembro – marcava o retorno do sol. Na Roma Antiga, a data de 25 de dezembro marcava o início das celebrações em homenagem ao nascimento do deus Sol, conhecido como “Natalis Solis Invcti” (O Nascimento do Sol Invencível). Com a oficialização do cristianismo no interior do Império Romano, várias destas datas foram incorporadas com o propósito de alargar o número de convertidos à nova religião do Estado. Nesse processo, o dia 25 de dezembro foi instituído como a data em que se comemorara o nascimento de Jesus Cristo. Assim como um brasileiro, portanto, estaria cultivando outra cultura com o Halloween, um não - cristão estaria cultivando outras religiões ao celebrar o Natal. Daí, indagações sobre o patriotismo são superadas por questões que já se referem a crenças internalizadas, tão características do sujeito quanto qualquer nacionalidade. Pertencimento cultural, sobre algumas festividades, é ponto “dilemático” neste mundo atual tão globalizado. 
Não nos opomos ao Natal, que a tantos corações já alegra. Por que devemos nos opor ao Halloween, que é tão de outros povos e histórias quanto o Natal? O que significa se isso é mais forte nos Estados Unidos ou se utilizamos aqui, dessa forma, um Papai Noel que vive o inverno do Norte, se é essa a representação que já está internalizada no carinho dos brasileiros por essa figura de barba branca? Criemos bonecos de Papai Noel com sunga na praia, um Papai Noel mais brasileiro. Insiramos, com certeza, os nossos mitos de terror às celebrações de Halloween. Mais Brasil, mais da nossa cultura é sempre bom, mas não se deve rechaçar como vírus o que vem de fora. O que não se pode fazer, entretanto, é esquecer a nossa riqueza, o nosso folclore, as nossas marcas, a nossa mula-sem-cabeça, a nossa Cuca, o Curupira, o nosso Saci Pererê... 

Elisa Deler | Professora de Espanhol

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