quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Kuna Libertária – mentes e corações cheios

Foto: Nathália Gasparini
Nas últimas três semanas, mais um espaço vazio vem sendo ocupado na cidade. O antigo espaço do Tablado Andaluz, que nos últimos três anos foi palco apenas do abandono, recebeu novos moradores. Preocupados não apenas em dar vida e utilidade ao vazio, mas também em ser um espaço de livre expressão de arte, de cultura e da livre difusão de conhecimento.

O lugar abre espaço para saraus e oficinas -  de dança, costura, expressão corporal – totalmente gratuitas. A ideia é o livre compartilhamento de ideias e desmonetarização das relações.

Descritas na carta aberta ao proprietário, seguem aqui algumas das ideias da Kuna.
“O dinheiro não existe
[...]Pessoas diferentes. Crescemos e nos desenvolvemos em contextos culturais completamente diferentes. Tu, um engenheiro civil, dono de uma construtora que ergue, compra e vende imóveis. Nós, um coletivo de artistas que toma a vida por um viés bastante simples, o corpo como ferramenta.
Sim, sim, sim, já sabemos. Nós também não gostaríamos que alguém entrasse na nossa casa. Muitos de nós não tem casa. E essa estava vazia. Um salão vazio há tempos.
E nossos corpos?! Cheios.
Nossas mentes e corações?! Cheios.
Na busca de um lugar para o transborde coletivo. Você tem (quase) toda a razão. Nossa ação pode, em certa medida, ofendê-lo. Ainda assim, tome algum tempo para acolher algumas palavras que trazemos.
Trabalhamos em desenvolver e intensificar as relações que constroem a dinâmica da nossa sociedade. Nenhum de nós quer ser dono de um lugar que vale tantos e não sabemos quantos mil reais. Nenhum de nós acredita na propriedade privada e não a queremos em nossas vidas. A base das nossas relações é alheia a interesses econômicos e não queremos por nenhum motivo travar uma briga contigo. Acontece que tampouco queremos abrir mão desse espaço para que ele volte a estar vazio e se converta em não mais que o espectro de um imóvel.
Não queremos mexer contigo. Não nos interessa nenhum aspecto da tua vida privada nem quantos imóveis registram tuas contas administrativas. Se ocupamos esse salão é por entendermos que ele não está cumprindo nenhuma função. Mas pode vir a cumprir. Veja só esse grande e potente espaço, Kuna - berço, simplesmente vazio e abandonado. E nós, todos nós (muito mais que nós) pequenos e potentes, simplesmente cheios e vitalizados, prontos a nascer.
A questão aqui é de coerência. Temos entre a Kuna e o Sr Renato todo um caminho já burocratizado e repertorializado de razões ou da falta delas. Hoje a questão é outra. Tentamos aqui diminuir a burocracia no nosso diálogo, para que a ação seja mais efetiva e construtiva em prol do espaço, desvencilhando-nos das charlatanices que resgatam uma forma empoeirada, digna nem mesmo de museu, para pensar as relacoes humanas. Co-e-rên-cia. Co-e-xis-tên-cia.
Um lugar de expressão. Livre expressão. Palco gratuito de vidas. Experiências de vida. Não uma morada exatamente, mas também. Muitos anseiam a vida que esse lugar pode gerar. Há a possibilidade de que o Senhor não intencione a estagnação desse espaço, mas por ter tantos outros a fazeres, esteja esquecido ou amortecido da importância desse lugar.
[...]
Ocupamos por convicção.
Ocupamos porque encontramos nessa ação, um canal de expressão, de desenvolvimento e uma possibilidade de caminhada com autonomia ante as utopias não somente nossas, se não de todos aqueles que intencionam em ter espaço e tempo para tornar autenticos seus meios de vida.
E isso tudo não como um objetivo a alcançar, se não como a própria forma de viver. Aqui, nesse espaço, com nosso tempo, criatividade, energia estamos construindo um estilo de vida que não é único, mas é um: outro. Estilo esse que convida a fazer da vida uma coisa inédita. Espontânea, autônoma e libertária. Sem depositar votos numa urna de futuros prometidos. O amanhã é agora e o operamos hoje.
Somos atores roteiristas de uma peça sem cartaz, sem diretor, sem acordos prévios que farseiem um espetáculo. Verdade nua e crua. É com isso que trabalhamos. E a verdade é tão louca que as vezes a apelidamos de ilusão, mas não, não nos confundamos, tratamos aqui de dimensões utópicas e fazeres concretos e reais. Bem vindo ao mundo, ser.
Queremos lhe mostrar nosso corpo e o quanto ele necessita desse espaço. Que os amigos começassem o som e que o corpo responda da forma mais genuína ao impulso gerado pelos instrumentos. Gostaríamos que entendesses o quão importante esse espaço pode ser para um montão de pessoas enquanto segues tua rotina (com todo o respeito) em outra cidade do estado pensando uma vez ou menos por dia nesse tablado abandonado. Se a reação defensiva que te surge é por medo de perder o imóvel, fica tranquilo. Te convidamos a dançar com a gente. Juntos, queremos nesse espaço a vida. Nem o seu abandono, nem seu enclausuramento em mais um predio; queremos ser como o vento penetrante que levantou a poeira de três anos quando abrimos a porta e as janelas."
O texto pode ser conferido na íntegra no blog da Kuna Libertária.

Emily Blanco, núcleo de Comunicação

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