terça-feira, 18 de novembro de 2014

18-11-2014

Eu não me encontrava nos conteúdos que estudávamos na escola. Por mais que  eu procurasse, a escola não falava sobre mim: tudo o que eu lia e aprendia dizia respeito  ao modo como homens fizeram descobertas científicas relevantes, compuseram poemas  consagrados e representativos da cultura de seu povo e, mais do que isso,  (re)escreveram a história da humanidade, em um complexo jogo de resistência e  dominação. Quando eu abria o livro didático de biologia, por exemplo, tinha outro  susto: lá estava um corpo descrito, célula a célula, em seus minúsculos detalhes. Era um corpo, entretanto, que não sentia medo, prazer ou desejo: algo que deixava de ser  humano e passava a ser apenas didático.

A verdade é que a escola deveria ser um lugar de conhecimento; no entanto, no que se refere a questões de gênero e sexualidade, é um lugar de silenciamento. O  currículo escolar, construído a partir da perspectiva do homem branco e heterossexual,  oculta as vozes de mulheres que, assim como os homens que tanto conhecemos, também foram cientistas, escritoras e sujeitos da história. A escola (bem como a mídia,  a igreja, a família e as outras instituições humanas) fabrica sujeitos, ensinando-os uma  “forma ideal” de viver o masculino ou o feminino. Através do currículo escolar, os  grupos socioculturais dominantes expressam e legitimam sua cultura, negando ou  silenciando todas as outras possibilidades que teríamos de viver nosso gênero e nosso  corpo. Por muito tempo, eu acreditei na história única sobre o que é ser mulher que me contaram: uma história que discorria sobre submissão, afetividade, romantismo e  fraqueza (como uma princesa que precisava ser salva por um homem valente, incapaz  que ela era de ser tornar a heroína de sua própria vida). O feminismo me ensinou,  contudo, que há muitas formas de ser (e estar) homem ou mulher e que nenhuma nelas é mais legítima ou natural: são todas socialmente construídas. Como Beauvoir nos disse,  não se nasce mulher, torna-se. 

Quanto à sexualidade, a escola aposta em uma visão biológica do sexo, que  enfoca sua função reprodutiva e tem como objetivo controlar e reprimir as expressões  sexuais entre os jovens. Um exemplo disso é que muitos professores ainda preferem  falar em órgãos reprodutores, em vez de órgãos sexuais. Da mesma forma, não  abordam uma vivência saudável do sexo, mas sim as doenças sexualmente  transmissíveis e a gravidez na adolescência. Trata-se de uma perspectiva higienizadora, que acaba deixando os alunos mais temerosos do que seguros quanto às relações  sexuais. Aliás, você estudou, nas fatídicas aulas de Educação Sexual na escola, outras  vivências sexuais que não fossem heterossexuais? Pelo que tenho lido e observado, aheterossexualidade é instituída e vivenciada no currículo escolar como a única  possibilidade legítima de expressão sexual. Portanto (e infelizmente), a orientação  sexual na escola é baseada na repressão, no controle e na heteronormatividade. 

Entretanto, se quisermos construir uma educação verdadeiramente popular, que  auxilie os alunos a lidarem com a complexidade do mundo para nele intervir e participar  de forma autônoma e crítica, teremos que repensar a maneira como nossas práticas  pedagógicas (assim como a rotina escolar em si) têm silenciado as vozes daqueles que  não se ajustam aos padrões hegemônicos de gênero e sexualidade na sociedade. Educar  é um ato político e, como tal, exige que entremos em uma luta, na qual a neutralidade é  impossível; e a autorreflexividade, por outro lado, mais do que necessária. Que 
diariamente nos perguntemos o que legitimamos quando fazemos piadas homofóbicas e  machistas; o que fortalecemos quando permitimos práticas de bullying com “a menina  vadia” ou os homossexuais; o que construímos quando não problematizamos a história  única sobre ser mulher; e, principalmente, para que(m) serve nosso conhecimento  quando negligenciamos questões de gênero e sexualidade.  Bibliografia


CORAZZA, S. M. Planejamento de ensino como estratégia de política cultural. In. 
MOREIRA, A. F. (Org.) Currículo: questões atuais. Campinas: Papiro, 1997.
LOURO, G. L. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. 
Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
_______________. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2ª Ed. Belo 
Horizonte: Autêntica, 2000.
SANTOMÉ, J. T. As culturas negadas e silenciadas no currículo. In. SILVA, T. T. 
(Org.) Alienígenas na sala de aula. Rio de Janeiro: Vozes, 1995.

Caroline Ozório | Professora de português

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