sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A língua não está virando um dialeto confuso

      Recentemente, Alexandre Garcia afirmou no Bom Dia Brasil que um curso de Letras não seria capaz de afetar a vida das pessoas, ignorando completamente que ler e escrever são condições fundamentais para o acesso ao conhecimento e o exercício pleno da cidadania. Dias após a colocação do jornalista, recebemos a preocupante notícia de que 529 mil estudantes zeraram as redações no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). De fato, a dimensão desse dado nos traz inúmeras reflexões e, entre elas, a certeza da importância de uma Educação Linguística direcionada para a formação de leitores e para o desenvolvimento da autoria nos alunos; que, sim, têm suas vidas afetadas por um (nem tão) simples curso de Letras Neolatinas.

  Diante dessa “nova” manchete jornalística, Alexandre Garcia obrigou-se a reconhecer a relevância das práticas sociais de leitura e escrita, lembrando-se das demandas profissionais entorno dessas (em suas palavras, “os empregadores no Brasil têm uma grande queixa: as pessoas não entendem as instruções e não conseguem se expressar com clareza”). Entretanto, no mesmo Bom Dia Brasil em que desvalorizou os profissionais de Letras, o jornalista demonstrou mais desinformação ao alegar que “a língua, que é uma das bases da nação tanto quanto o território, está virando um dialeto confuso”. Através dessa opinião, ele demonstra seu desconhecimento do curso natural de uma língua: a mudança. Em livro publicado em 1916, Ferdinand de Saussure já nos ensinava: “o tempo muda todas as coisas, não há razão para a língua escapar dessa lei universal”. Sendo assim, o português não está virando um dialeto confuso; na verdade, ele está “muito bem, obrigado”. Gostem ou não, nossa língua é viva e se renova.

     Além disso, o jornalista baseia sua argumentação em preconceitos linguísticos, que tão somente servem para reforçar a língua escrita como uma barreira espinhosa para o ingresso na Universidade. O problema não está em chamar Dilma Rousseff de “presidenta”, como ele afirmou, mas em preocupar-se mais com gramatiquices e purismos linguísticos do que com leitura, subjetividade e autoria. Portanto, como educadores, devemos nos questionar se estamos possibilitando que os alunos se desenvolvam como seres de linguagem que são; e, como falantes do português, devemos desfrutar de nossa língua “em toda sua riqueza, flexibilidade, expressividade e malícia” – como propõe Mário Perini em A língua do Brasil amanhã e outros mistérios. 

    Observação: resta lembrar aos leitores que o vocábulo “presidenta” existe na língua portuguesa desde 1872, sendo dicionarizado em 1925: não há “esquisitice” nenhuma nisso


Caroline Ozório | Professora de Português




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