quarta-feira, 18 de março de 2015

Na primeira semana de aula, o pensamento crítico já chegou


Na primeira semana de aula do Resgate Popular, a pedagoga Fabiane Castilho Oliveira perguntou para a turma Revolução: 

– Quem vai passar na UFRGS?

– NÓS! – gritaram, com força, os revolucionários.

O grito atravessava repetidamente os corredores e janelas da Escola Técnica da UFRGS, onde as aulas acontecem. Do mesmo copo de motivação, bebia a professora Letícia Sório Saraiva, que se apresentava aos alunos pela primeira vez, em um papo reto.

 – Eu sou a professora de matemática, apesar de ter essa cara de qualquer outra coisa. Eu AMO o Resgate e eu vou dar aula para vocês. Nossas aulas vão ser diferentes, porque eu sei que talvez a maioria aqui não goste de matemática. Mas eu prometo que eu vou fazer de tudo pra que nada ruim aconteça no meio do caminho – avisou.

Dos recém saídos da escola aos de cabelo branco, os revolucionários olhavam para a professora Letícia com a esperança de que uma relação amorosa com os números - e com o Resgate - começava ali. Durante a primeira aula, os alunos discutiram a matemática presente em notícias sobre o preço da passagem de ônibus, e perceberam que não dá para odiar algo que pode ser um instrumento de crítica e um aliado no dia a dia.

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Enquanto os revolucionários percebiam que nem sempre números são indiscutíveis, e que a matemática também pode ser alvo de crítica, na sala ao lado, a turma Amor pegava fogo ao debater sobre mais-valia. Na dinâmica da fábrica, refletiam sobre o sistema capitalista e discutiam, com argumentos ardentes, sobre o que mantém esse sistema.

A aluna uruguaia Elizabeth Cruz, de 52 anos, observava a livre discussão com o encantamento de quem já viveu a repressão. Da infância e adolescência no Uruguai, Elizabeth recorda dos militares em cima dos cavalos em frente à escola. “Queríamos fugir do colégio, mas tínhamos medo de que eles nos recolhessem enquanto esperávamos em grupo o ônibus na parada. Era horrível.”

Há 26 anos no Brasil, Elizabeth ensinou às filhas o valor da liberdade. No Resgate, encontrou a turma do pensamento crítico que procurava. 


Júlia Lewgoy | Núcleo de Comunicação

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