domingo, 8 de março de 2015

Não queremos flores, queremos direitos!

Carla Ernesto gosta de sentar-se em um bar para tomar cerveja, mas percebe olhares que questionam o que ela faz ali. Nathielle Rodrigues não entendia, quando criança, por que devia furar a orelha e brincar com o fogão da boneca, e não podia saltar de pernas abertas. Camila Terra da Rosa faz de conta que não percebe quando gritam que ela comprou a carteira de motorista enquanto estaciona o carro. Caroline Marques se revoltou quando virou piada na internet ao carregar um cartaz em uma manifestação feminista.

Carla é aluna do Resgate Popular. Nathielle e Caroline, professoras, e Camila, psicóloga. Ao ouvir seus relatos, é fácil entender por que o Dia Internacional da Mulher - e todos os outros - ainda são de luta. "É dia de batalha, de enraizar a nossa luta. Sou mulher, negra e homessexual. Sou forte e tenho que botar a boca no trombone", avisa Carla. Há três anos como aluna do Resgate, ela quer cursar Publicidade e Propaganda. "Quem disse que propaganda de cerveja tem que ser só bunda de mulher gostosa na praia?", indigna-se.


Ainda há muito o que avançar. "O que adianta recebermos flores no Dia da Mulher, se em todos os outros dias somos objetos de opressão?", questiona a professora de Literatura Nathielle. Foi quando um ex-namorado a proibiu de usar biquini na beira da praia que ela percebeu que havia algo errado. Hoje, se sente acolhida pelo feminismo, e acredita que os homens também deveriam se sentir assim. "Não são só as mulheres que sofrem com o machismo, os homens também. É difícil ter que se mostrar macho a vida inteira."


A psicóloga Camila vê o machism
o invisível nas aparências. Basta um olhar de um homem na rua para intimidar. A submissão é naturalizada. "Quando minha mãe engravidou, pediu demissão do trabalho, que ela adorava, para cuidar de mim. Ninguém questionou se isso era normal", conta. O mesmo aconteceu com a professora de espanhol Caroline. No Resgate, ela se emociona quando vê as alunas perceberem o feminismo pela primeira vez. "Elas se dão conta de tudo que superaram para estar ali, na sala de aula. A educação emancipa as mulheres."
Júlia Lewgoy | Núcleo de Comunicação

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Lugar de Mulher


Para se fazer ouvir, unem-se em ato e voz
Para se fortalecer, unem-se em cores e colares
Para se curar, usam os olhos umas das outras
Seres admiráveis, sejamos todos mulheres
Mas há muito a ser feito
É preciso altear as vozes para ecoar dentro de quem vem
Rompamos o silêncio
Seja por direito ou por obrigação com as nossas iguais
Ignorantes ou não de si
O Dia da Mulher não é para ganhar flores
É para calar a voz dos homens, acostumados ao protagonsimo
Para levá-los a meditar de um lugar diferente
Para exaltar as conquistas de igualdade de gênero e classe
O silêncio é uma agressão ainda maior que a violência
Naturaliza a não-observância dos espaços de cada um
Erguer-se diante dos olhares masculinizados da sociedade é fazer-se mulher

Naila Jenisch | Aluna do Resgate Popular

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