segunda-feira, 1 de junho de 2015

Novo desafio pro Resgate Popular: Curso de Português para Imigrantes iniciou no sábado


Mais um motivo pelo qual sonhar: foi esse o sentimento que ficou pro Pré-Vestibular Resgate Popular no fim da tarde do último sábado. A razão desse nosso mais novo sonho coletivo foi a aula inaugural que ocorreu do “Curso de Português para Imigrantes”, majoritariamente haitianos.

Cheguei faltando ainda uma hora pro início oficial, que estava marcado para às 17h (o que deve se repetir por todos os sábados até o fim do ano). De longe, já pude avistar um menino que também esperava do outro lado da rua, ouvia música distraidamente. Possivelmente era um aluno, o primeiro deles. A partir daí, a calma começou a ser substituída por uma certa ansiedade. Mais tarde, minha suposição se confirmou, era um aluno e o nome dele é Obenson, posteriormente descobri que ele trabalha numa indústria de massas e seu sonho - pelo menos por enquanto - é ser encanador e aprender português. Agora o sonho dele é também o sonho de cada um de nós do Resgate Popular. A nossa história começa aí. 

Logo depois que cheguei, a sala em que a aula ocorreria começou a ser arrumada, quando estava tudo pronto, os alunos foram aparecendo aos poucos. Gradativamente, tudo começou a fazer cada vez mais sentido, afinal, eles são o motivo de existir das aulas, e se eles estavam creditando suas esperanças no projeto, o mínimo seria retribuir com a maior dedicação possível. 

 E começaram as aulas

Num primeiro momento, o projeto foi apresentado. Resultado de uma parceria entre o Resgate Popular e o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de Porto Alegre - STICC, o objetivo é ensinar o nosso idioma pros imigrantes e fazer as dificuldades que eles encontram com o dialeto nacional deixarem de existir. As inscrições encerraram na semana passada com exatos 64 alunos, 61 haitianos e 3 senegaleses, destes, mais da metade compareceu à primeira aula. É um número irrisório se comparado à quantidade deles que chegam ao Brasil diariamente, mas já representa um início pra esse desafio que é o de realocá-los na sociedade brasileira, dando-lhes oportunidades e condições dignas de sobrevivência. O desejo não é que eles saiam apenas com um bom conhecimento em língua portuguesa, almeja-se que eles sejam cidadãos mais autônomos, conscientes de seus próprios direitos. Não há a intenção de ser um curso assistencialista, o empoderamento desses migrantes assume o protagonismo.

A ideia surgiu do próprio sindicado, que percebeu a crescente quantidade de imigrantes nas obras em Porto Alegre nos últimos tempos. Em vista disso, era preciso ficar atento ao que acontecia na base de sua representação. Unido a esse fato, o sindicato também faz um trabalho de internacionalização, o que significa adotar agendas inovadoras no âmbito de organizações sindicais internacionais ou organismos tripartites como a Organização Internacional do Trabalho - OIT. A agenda do trabalho imigrante faz parte disso. Com a ideia em mente, o Resgate Popular foi procurado para que ambos fechassem a parceria. A partir daí, selecionou-se um grupo de professores de português com conhecimento em francês, os quais serão os grandes responsáveis por ministrar as aulas. 

Na sequência, o coordenador geral do Resgate Popular, Bernardo De Carli, encarregado em organizar essa primeira aula, com a ajuda de uma tradutora pediu aos ali presentes que fizessem um grande círculo, permitindo o contato visual mútuo e a proximidade. Nesse momento, nossa “organização” foi apresentada brevemente, expondo ali o grande paradoxo que permeia a existência: as diversas "causas" de existir ao lado da busca incessante em de deixar de existir. Ou seja, lutar pela construção de uma sociedade mais igualitária em prol da transformação social pra que um dia projetos como o nosso não sejam mais necessários. É a caminhada incessante em busca do horizonte utópico. 

Ainda aproveitando aquele momento, também foram citados os pontos que aproximam o Brasil do Haiti, como a cultura de exploração que faz parte de ambas as nações historicamente. Outras observações importantes foram feitas, como o fato de o Haiti ser um grande exemplo na América Latina, já que foi o primeiro país a conquistar a independência de sua colônia de exploração - a França -  bem como o primeiro a abolir a escravidão no continente americano. 

É importante ressaltar que o processo de migração começou a partir de 2010, ano no qual o país sofreu uma grande catástrofe natural - um terremoto de 7 graus na escala Richter matou em média 300 mil haitianos e deixou milhares dos que sobreviveram sem habitação. A saída foi buscar uma nova vida em outro país e, muito querido pelos haitianos, o Brasil foi o eleito. Até porque a economia brasileira, dentre os países da América do Sul, é uma das melhores e oferece maior diversidade de empregos. 

Feitas todas as apresentações, a aula partiu pra um segundo momento

O Professor Bernardo De Carli convidou os alunos a se apresentarem, falando o nome e o seu grande "sonho". Aos poucos, eles foram ficando a vontade e, a cada fala que surgia, fazia mais e mais sentido o projeto existir. Foi unanimidade entre todos: a maior dificuldade no Brasil está sendo o idioma, os obstáculos que a comunicação impõe a eles fazem as oportunidades serem perdidas a cada dia. Alguns ainda alimentam a vontade de continuar vivendo aqui pra sempre, com o intuito de trazer a família futuramente, outros apenas querem juntar algum dinheiro e voltar para o respaldo da família no Haiti. Dos depoimentos, o que ficou evidente foi a diversidade. Um sonha em ser encanador, o Obenson. Outro quer ser pedreiro, já que "gosta muito de construção", segundo palavras do próprio. Outro ainda, deseja se formar em direito e indaga aos professores ali presentes o quão difícil seria ingressar em uma universidade aqui no Brasil. Muitos deles, no Haiti, estavam frequentando a universidade, o que não está sendo possível continuar aqui. Haviam apenas duas mulheres haitianas presentes no grupo e, pra uma delas, o sonho é apenas voltar a ver os dois filhos que ficaram para que ela pudesse viajar.

Dos "sonhos" citados na roda de conversas, o que prevaleceu foi a esperança no olhar e na fala de cada um. E agora a luta passa a ser essa também, pela liberdade e o direito de sonhar. Ao fim, um pacto foi feito. Todos vão buscar esses objetivos, vão frequentar e se comprometer com as aulas. E no fim do ano, vão ser encarregados de dar uma aula no Resgate Popular, seja sobre cultura, seja sobre história, seja o que for. De alunos vão passar a professores.


Mesmo ainda na posição de alunos, nessa primeira aula, os imigrantes ali presentes nos ensinaram mais do que aprenderam. Eles já são professores, mesmo que inconscientemente, mesmo que informalmente. Eles ensinam diariamente como é ser sobrevivente, seja de uma catástrofe natural ou das grandes desigualdades sociais. Eles ensinam a ter esperança e seguir em frente. Eles ensinam seres a serem minimamente mais humanos. 

Já passavam das 19h quando a aula terminou. Fica agora a ansiedade pra próxima, onde de fato as "regras" do português serão dadas, onde o obstáculo da língua passará a ser desconstruído a cada semana.

Muitos deles, quando falaram seus sonhos, também acrescentaram que gostariam que os brasileiros acreditassem mais neles, pois são seres igualmente capazes. Nós, Resgate Popular, acreditamos, e o nosso desafio agora é fazer, a cada dia, mais e mais alguém acreditar junto, sonhar junto e elevar a esperança. Juntos somos mais fortes.

Fotos: Resgate Popular | Laís Webber

Ketelyn Scrittori | Núcleo de Comunicação

2 comentários:

  1. Parabéns pela iniciativa. Sou pesquisadora do Haiti há 7 anos e me coloco à disposição de vocês para participar como necessitarem desse projeto. Meu contato é pmarconatto@gmail.com.

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  2. Parabéns Resgate Popular, pela iniciativa de acolher os irmãos estrangeiros, que provavelmente terão muitas dificuldades em nosso país. Acredito que a maior delas deve ser a linguagem, onde eu fiquei muito feliz de saber que o resgate popular está se colocando a disposição para
    superar... Entretanto não é a unica, acredito que os estrangeiros com domínio total da linguagem iram ter muito mais facilidade de adaptação e melhor condições de igualdade, mas devemos pensar em questões como o racismo e a desigualdade racial que predomina em nosso pais. Por isso me coloco a disposição se puder ajudar em alguma coisa. Novamente gostaria de dizer... PARABÉNS RESGATE POPULAR, tenho orgulho de ser um filho do resgate cada dias mais... Uma vez Resgatense, sempre Resgatense!!!

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