sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Dia Nacional da Nossa Consciência

Irmão Negro

Eu sou negro não apenas pelo meu tom de pele. Eu sou negra porque minha história é negra. Sou negro porque carrego milhares nos meus ombros. Sou negra porque sou Ubuntu. Quando venço, não venço sozinha, nem apenas por mim. Eu venço por todos os negros e todas as negras. Sou negro porque, para mim, o 20 de novembro não significa morte; significa redenção. 

Há algumas décadas, um escritor senegalês chamado Leópold Sédar Senghor escreveu um pequeno poema intitulado “Querido irmão branco”. Senghor, que casualmente foi presidente do Senegal, membro da Academia Francesa de Letras  e o primeiro africano a completar uma licenciatura na Sorbonne, deixou estas belas palavras:

Querido irmão branco:
Quando eu nasci, era negro.
Quando cresci, era negro.
Quando estou no sol, sou negro.
Quando adoeço, sou negro.
Quando morrer, serei negro.
Enquanto tu, homem branco,
Quando nasceste, eras rosado.
Quando cresceste, foste branco.
Quando estás no sol, ficas vermelho.
Quando sentes frio, és azul.
Quando sentes medo, és verde.
Quando adoeces, és amarelo.
Quando morreres, serás cinza.
Então, qual de nós é um homem de cor? 

Eu vivo no país que concentra o maior número de pessoas negras fora da África, um país em que mais da metade da população é negra, mas onde está o negro no Brasil? Nesse mesmo país - que, sim, é negro -, as raízes e influências negras estão presentes nas músicas, em pratos típicos, nas artes, no vestuário, mas negras e negros ainda são ridicularizados por terem “cabelo ruim”. Nesse país, que é negro, muitos não se declaram devotos ou praticantes de religiões negras por medo ou por vergonha. Então pergunto, mais uma vez: ONDE ESTÃO AS NEGRAS E NEGROS NO BRASIL?

Agora deixa eu escurecer uma coisinha. Não sou moreno, moreninho, mulato... Eu sou NEGRO. Eu sou Umbanda, sou Candomblé, sou favela, sou gueto, sou funk, sou samba, sou o morador de rua, sou a empregada doméstica, sou a estrela de cinema, sou o jovem que querem criminalizar, sou a maioria nas estatísticas dos índices de violência... Eu sou Angela Davis, sou Martin Luther King, sou Leila Gonzales. Ser negro é resistência, é ato político.


Já avançamos, é claro, mas ainda há muito para ser enegrecido. Desconstruir um racismo que é estrutural e institucionalizado não é tarefa fácil, mas essa é a nossa luta. Vamos enegrecer o ensino superior, vamos ocupar as cadeiras do Congresso, vamos reivindicar os espaços que nos pertencem e mostrar onde estão as negras e negros no Brasil.

Aos senhores racistas, digo-lhes: não preciso da sua pena, do seu olhar misericordioso e nem das suas patéticas tentativas de mascarar o racismo velado. Não preciso e nem vou "embranquecer" para poder compartilhar o mesmo espaço que vocês. Enquanto anunciam a minha liberdade (como se ela lhes pertencesse), exigem que eu entre pela porta dos fundos. Não quero ser um "negro de alma branca". Isso, aliás, nunca foi e nunca será um elogio. Sinto muito informar, mas eu não preciso me integrar à sociedade, eu SOU a sociedade.

Leonardo Marion e Juan David Rico Ortiz | Núcleo de Comunicação
Imagem: Monica Dawud

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